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HERÓIS ANÔNIMOS

Pessoas que provocam uma revolução em seu próprio ambiente       Rosa não é famosa. Não aparece na televisão ou nas capas da revista. Mas Rosa é minha heroína.     Devo confessar que acho que há coisas para as quais eu não estou preparada. Coisas que me fazem jogar a toalha, não tentar […]

Blog - Heróis anônimos

Pessoas que provocam uma revolução em seu próprio ambiente

 

 

 

Rosa não é famosa.

Não aparece na televisão ou nas capas da revista.

Mas Rosa é minha heroína.

 

 

Devo confessar que acho que há coisas para as quais eu não estou preparada. Coisas que me fazem jogar a toalha, não tentar de novo e até ficar com raiva (ou me atrever a discutir com alguém).

Existem centenas de livros que contam a vida e obras de pessoas que, de uma maneira ou de outra, mudaram o curso da história, heróis consagrados por algum trabalho notável ou indivíduos que se destacam por algum motivo em particular. Em termos gerais, acho que todas as causas que levam a esse tipo de “fama” para todas essas pessoas têm a ver com a vida de outras pessoas. Como?

Bem, todos conhecemos Madre Teresa. Sabemos quem foi e, pelo menos por cim, qual era a luta dela. Ficamos surpresos com esse tipo de trabalho, e alguns podem até se sentir “pouco” se buscarem se comparar àquela mulher.

Também conhecemos Martin Luther King ou Irmã Dulce. William Shakespeare ou Tomás de Aquino estão sempre no discurso de quem fala sobre pessoas que contribuíram de alguma forma nas áreas sociais. Poderíamos usar páginas e mais páginas listando essas pessoas que quase parecem terem vindo de outro planeta.

Eu celebro a vida de todas essas pessoas. Dificilmente alguém deixará de admirá-las. Mas também preciso admitir que me sinto um pouco distante de todos eles. Acho que não há nada brilhante no meu trabalho. Não há nada que afete o curso do Universo (embora eu não negue a relevância do meus trabalhos, certo? Aprendi desde criança que a nossa conduta, guiada pelos nossos valores, de uma maneira ou de outra, afeta a vida de outras pessoas).

Ao mesmo tempo, sinto que não sou a única que se sente assim. Conheço muitas pessoas que pensam que suas vidas têm um baixo nível de influência. Não me entenda mal, não estou dizendo com isso que talvez eu tenha pouca importância ou que não tenhamos propósito. O que estou dizendo, na realidade, é que que muitas vezes não sentimos à vontade ao nos compararmos com personalidades como as que eu citei no começo deste artigo.

Esse paradigma mudou em minha vida há algum tempo. O que produziu essa mudança retumbante não foi inteiramente agradável, mas foi decisivo para a mudança nessa estrutura do meu pensamento.

Há muito tempo, tive a oportunidade de ser voluntária em um hospital infantil. Ali, eu conheci muitas pessoas que vieram de diferentes partes do país ao hospital em busca de algum tratamento médico para seus filhos (geralmente eram pais e filhos). O que eu vi, o que ouvi, o que vivi é indescritível. Eu nunca tinha experimentado uma coisa dessas. Às vezes, eu sentia como se tivesse passado toda a minha vida em uma “bolha”. Aquele hospital também era parte do mundo, embora parecesse ser um mundo diferente do meu. Ali também havia realidade, muito distante da minha, mas era real. Lá conheci Rosa, mãe de Ana (14) e Rita (quase 2). Elas vieram do interior do país. Eu digo que conheci todas, porque as três estavam no hospital. Carmen cuidou de Ana e Rita. Ambas as filhas estavam com câncer.

Quando comecei a trabalhar lá, o diretor do hospital me disse algo impressionante: “Será muito bom para você interagir o máximo que puder com as mães e as crianças, mas tente não se envolver demais, pois será difícil viver certas coisas”.

Quando conheci Rosa, entendi o que o diretor queria dizer.

Eu compartilhei muitas coisas com ela e sua filha mais velha. Contamos muitas coisas uma à outra e conseguimos estabelecer um relacionamento bonito.

Não me lembro quanto tempo se passou desde o dia que as conheci até aquela segunda-feira em que cheguei ao hospital. Como era meu hábito, fui encontrar Rosa no quarto dela. Mas não havia ninguém lá. Eu pensei que elas haviam recebido alta e que haviam retornado à sua cidade, como era muito comum. Mas eu estava errada. Não havia ninguém naquele quarto porque Ana não estava mais lá, nem em Buenos Aires nem em Formosa. Eu mal posso explicar esse sentimento. Nem é relevante. O mais impressionante é o que aconteceu a seguir.

Três semanas depois, Rosa voltou ao hospital porque Rita continuava seu tratamento. O primeiro encontro foi estranho. Eu não sabia o que dizer ou o que fazer. Felizmente, Rosa sabia o que dizer: “Bem, aqui estamos nós lutando pelo Rita mais do que nunca. Acreditamos que tudo ficará bem. Rita é uma garota com uma força tremenda, e é isso que me ajuda a continuar”.

Rosa não é Madre Teresa, nem Gandhi, nem defensora mundial dos Direitos Humanos… e ela também não quer ser. Mas acredito fervorosamente que Rosa é o tipo de heroína anônima de quem me sinto mais próxima. Imagina por quê? Não que eu compartilhe a luta de Rosa; graças a Deus, eu não tenho um membro da família que sofre de algum tipo de doença terminal. Ainda assim, Rosa é a minha heroína íntima, porque me provoca tanta admiração como poucos conseguem provocar. Ela inspira luta, inspira encorajamento, inspira esperança, inspira fé. Pode estar tudo nublado, ou melhor, tempestuoso, mas Rosa nunca deixou sua esperança se esvair.

As várias conversas que tive com ela, antes e depois da partida de Ana, são a prova de que existem pessoas com esse DNA raro. Ela faz parte desse grupo seleto de pessoas que despertam inspiração e dão força. Se ela, depois de passar por situações para as quais existem poucas explicações, continua caminhando sem desistir, então, eu também posso. E você também pode.

Francamente, não importa o que vivemos. Doença? Desapontamento? Abuso? Abandono? Nós não somos os únicos. Existem centenas de milhares como nós. A chave é como nos colocamos diante dessas situações. Podemos nos machucar, com perguntas e mais perguntas em nossas cabeças, mas ainda podemos continuar lutando.

Podemos não ser esse tipo de pessoa que aparece na mídia por nosso sucesso ou dinheiro. Em suma, pouco importa. Estou completamente certa de que, onde estamos, nessa luta que temos, podemos ser o herói ou a heroína das pessoas ao nosso redor. Rosa era a heroína do marido, de Ana e de Rita, além de minha e de muitos dos voluntários que trabalhavam lá. Alguns dos voluntários me disseram: “Rosa é uma velha amiga da casa. Ele está aqui há mais de sete anos. Durante todo esse tempo, ela sempre foi uma leoa que nunca desiste”.

Rosa afetou minha vida e a minha maneira de ver problemas. Ele é uma pessoa contagiante, cheia de força e esperança. Então, eu quero ser também. Não sei se algum dia as pessoas falarão de mim como uma pessoa que mudou o mundo, mas quero transcender as pessoas à minha volta e, para isso, devo começar hoje.

E você? O que você quer para si mesmo?

 

 

 

Evangelina Daldi,

Coordenadora Executiva,

Editora Vida

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