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O CORPO DE CRISTO E O PAGANISMO PÓS-MODERNO

Por toda parte, para onde olharmos, há alguém escrevendo algo sobre a pandemia. Não somente o noticiário geral, mas refiro-me especialmente a autores, pastores, teólogos, produtores de conteúdo que são evangélicos, todos têm dado contribuições as mais diversas sobre como voltaremos do isolamento social. Quem é o cristão e com qual perfil ou identidade a […]

Blog - O Corpo de Cristo e o paganismo pós-moderno

Por toda parte, para onde olharmos, há alguém escrevendo algo sobre a pandemia. Não somente o noticiário geral, mas refiro-me especialmente a autores, pastores, teólogos, produtores de conteúdo que são evangélicos, todos têm dado contribuições as mais diversas sobre como voltaremos do isolamento social. Quem é o cristão e com qual perfil ou identidade a Igreja voltará do isolamento. É possível acrescentar variadas abordagens e hipóteses sobre esse problema, mas quero ater-me a uma que considero indispensável à Igreja discutir, refletir e tomar medidas sérias e firmes.

Nas cartas que escreveu, Paulo ensinou sobre certos aspectos da Igreja utilizando metáforas: corpo, lavoura, edifício e outras. Intrinsecamente está o conceito de uma entidade coletiva, jamais individual. “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.” (1Coríntios 6.19-20)

Ninguém é Igreja sozinho; somos Igreja no ajuntamento, na comunhão, na coletividade. “Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação” (Efésios 4.4; grifo meu).

Se nos últimos anos vimos uma forte tendência à profissionalização da fé, notadamente da gestão eclesiástica, isso enfraqueceu (eu diria ignorou, descartou) a promoção do Corpo de Cristo enquanto organismo vivo de dons espirituais para a edificação própria. Em outras palavras, o próprio Deus planejou a Igreja como corpo com membros distintos, cada membro tendo plenas condições de contribuir com o fortalecimento do Corpo uma vez que recebe de Deus tal capacidade, de modo que todo e qualquer expediente alheio a esse modelo pode vir a rivalizar com o que Deus planejou para a sua Igreja.

Modelos de gestão, técnicas neurolinguísticas, recursos audiovisuais e outros apetrechos podem facilitar a vida dos membros e dos oficiais da igreja em uma cidade grande, com rotina agitada e agendas apertadas. No entanto, constitui-se um paganismo pós-moderno a dependência aferrada a esse repertório, a esse almoxarifado que se renova a cada novo processador, a cada novo modelo de iPhone, por uma simples razão:

 

E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Efésios 4.11-13; grifo meu).

 

A pandemia terá servido para apressar várias tendências que ensaiávamos implantar em nossas vidas, como o ensino EaD, a melhor utilização dos modelos home office para serviços e escritórios, além de fazer as pessoas apressarem-se no aprendizado sobre as novas mídias, do uso dos aplicativos (Apps) e de tudo o mais.

No Corpo de Cristo, a divisão das tarefas concentradas em um ministério profissionalizado, gerido por um corpo de especialistas fornecedores de serviços (para utilizar os termos da sociologia), deve ter se mostrado ineficaz durante o isolamento social, quando os membros não mais se debruçaram sobre um balcão exigindo um culto ou apresentação de um jeito ou de outro a seu gosto pessoal. A gestão do Corpo de Cristo durante o isolamento terá sido, sob essa ótica, uma bênção de Deus para as igrejas que permitem a seus membros contribuírem com aquilo que têm recebido do Senhor: “Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação.” (1Coríntios 14.26)

O espaço não permite incrementar com exemplos as manifestações de solidariedade entre irmãos, gestos antes concentrados exclusivamente em um departamento que ninguém sabia muito bem onde ficava na igreja local. Agora, no entanto, orientados por Cristo, “Do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, [cada um de nós] faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor.” (Efésios 4.16)

Se a pandemia mudar as dinâmicas internas nas igrejas que concentraram a gestão do ministério nos ombros de poucos, poderá ser, no futuro, comparada ao êxodo, quando Deus vem habitar no meio de todo o seu povo e volta a passear em meio aos que clamam pelo seu nome.

 

Magno Paganelli

Articulista da obra: Cristianismo pós-pandemia

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